quarta-feira, agosto 02, 2017

Afinal ainda há “Lobos do Mar” (conto real)




Quando me dirigia para Sesimbra, a fim de falar dos meus livros na Feira do Livro, trazia dentro de mim dois sentimentos muito especiais: o de que iria a uma terra de pescadores, algo muito especial devido à minha ascendência, e o de que me poderia cruzar com o Desterrado, barco que pertenceu ao meu tio David, mas que depois foi vendido para Sesimbra.

Este gasoleiro tem um significado especial para mim, pois, como conto no livro “As minhas aventuras do País dos Sovietes”, foi uma das causas que levou a virar-me de costas para o mar e a não seguir o mester dos meus antepassados. Bastou uma pequena viagem nele num mar fortemente ondulado…

Fui eu que pedi ao meu tio que “baptizasse” o seu barco com o nome de Desterrado, porque eu tinha visto e ficado deslumbrado com a obra-prima do escultor Soares dos Reis num dos livros da escola primária, não me recordo se no da terceira ou quarta classe.

Terminada a sessão de conversa e de autógrafos com os leitores, a quem agradeço a sua presença, aproximou-se de mim um homem baixo, forte e de pele queimada pelo Sol.

- Boa noite, ia a passar por aqui e conheci-o pela voz. Fui eu que comprei o Desterrado aos seus tios: David e Ludovina. Já o vendi há 10 anos atrás, mas continua a pescar- disse-me o desconhecido, que, pelo aspecto, me fez lembrar os pescadores da Póvoa de Varzim ou das Caxinas, neste caso, o mestre de uma embarcação.









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Fiquei tão surpreendido que até me esqueci de lhe perguntar o nome, por isso lhe chamo “Lobo do Mar”, mas tomado por uma felicidade imensa com tão inesperado encontro.


Mais surpreendido fiquei ainda quando ele chamou a atenção para as suas pernas, pois vestia calções: parte de uma tratava-se de uma prótese, pois fora ferido na guerra colonial. Na outra perna tinha tatuadas a palavra Desterrado e uma sigla que faz lembrar as siglas poveiras, com as quais as famílias de pescadores marcavam os seus apetrechos.

-  Sabe, diz-me ele, fui eu que criei esta sigla à imagem das poveiras, pois nos nossos lados não são comuns.

Numa noite amena, o “Lobo do Mar” contou-me como comprou o Desterrado, como fez a escritura com os meus tios David e Ludovina, e não mostrou surpresa que o meu tio ainda seja pescador não obstante os seus cerca de 80 anos.

Durante a conversa, ele insinuou que o facto de eu tanto querer dar o nome de Desterrado ao barco se tenha transformado numa maldição para mim e o meu destino.

- Não, porque o desterrado vai contra a sua própria vontade, forçado, e eu parti um dia de livre vontade, respondi-lhe.

2 comentários:

Madalena Amaral disse...

Semana passada estive na sua terra natal e visitei o museu etnográfico , que é digno de ser visto. A tatuagem que o senhor apresenta na perna e a que chama Lobo do Mar, parece que era um símbolo de comunicação entre os pescadores poveiros . Pelo menos foi o que presenciei no tal museu .

José Milhazes disse...

Madalena Amaral, as siglas poveiras serviam para marcar a propriedade dos objectos, pois os pescadores eram analfabetos. Cada família tinha a sua.